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domingo, 5 de outubro de 2008

Revista da Folha



Fomos entrevistados para a Revista da Folha. Os alunos foram fotografados, mas as fotos não apareceram na matéria... (Que pena!) Mesmo assim, obrigada a todos por terem participado da entrevista. Este é um trecho dela:

Massacre Virtual

por Rafael Balsemão

Alice* tinha 17 anos e cursava o segundo ano do ensino médio no Colégio Faap, em Higienópolis, zona oeste. Estava há dois anos na escola quando fez uma descoberta chocante. Haviam sido criadas anonimamente duas comunidades no Orkut contra ela: "Eu odeio a tosca da Alice", destinada, segundo descrição da página, "a todos que odeiam essa menina que se acha!", e uma outra com referências preconceituosas ao Estado de origem de sua mãe.

Diante do teor dos ataques, a família da estudante achou melhor tirá-la do colégio. Na nova escola, descobriu que a história tinha se disseminado. A solução foi mandar Alice para fora do país, em um programa de intercâmbio, enquanto eram tomadas providências legais para a retirada das páginas do ar e o rastreamento do autor ou dos autores.

Alice estava no centro de um caso de "bullying" virtual ou "ciberbullying", fenômeno que transfere para a internet as agressões típicas que estudantes mais frágeis ou mais visados sofrem dentro dos muros da escola. Enquanto o clássico "bullying" acontece na sala de aula, no playground e nos arredores do colégio, a versão no ciberespaço transcende os limites da instituição de ensino.

Hostilidades sempre existiram no ambiente escolar, mas elas se potencializam na rede mundial de computadores, diante da facilidade atual de criar páginas e comunidades na internet. Para humilhar colegas de escola, os meios utilizados vão desde e-mails e mensagens de celular injuriosas, passando por fotografias digitais e montagens degradantes, a blogs com mensagens ofensivas. Os ataques também tomam forma em vídeos humilhantes e ofensas em salas de bate-papo.

"No mundo real, a agressão tem começo, meio e fim. Na internet, ela não acaba, fica aquele fantasma", compara Rodrigo Nejm, psicólogo e diretor de prevenção da SaferNet Brasil, ONG cujo foco é desenvolver trabalhos contra a pornografia infantil na web.

O resultado preliminar de uma enquete sobre segurança na internet realizada no site da ONG (www.safernet.org.br) assusta: 46% de 510 crianças e adolescentes que responderam ao questionário a?rmam que foram vítimas de agressões pela internet ao menos uma vez; 34,8% dizem que foram agredidos mais de duas vezes. "Não é apenas uma brincadeirinha. As conseqüências são graves e prejudicam demais as vítimas", ressalta Rodrigo. Dos participantes do levantamento, 31% são de São Paulo, Estado onde, segundo a SaferNet, há o maior número de relatos de "ciberbullying".

Na delegacia
Pais e educadores vão aprendendo a lidar com o problema. Em São Paulo, as escolas engatinham ao se deparar com o fenômeno. Os ataques a Alice começaram em 2005, mesmo ano em que a mãe da jovem acionou a Justiça. "A adolescente estava completamente abalada quando chegou ao escritório", recorda o advogado contratado pela família da vítima, José Luis de Oliveira Lima, 42.

O processo, que só terminou em julho deste ano, é exemplar, ao tratar agressões pesadas como caso de polícia. "Foi uma guerra. Não existe regulamentação civil que coloque ordem na casa", diz José Luis. Todos os que postaram mensagens ofensivas nas duas comunidades contra a estudante foram chamados perante o delegado e/ou o juiz. Diante da prova -as páginas copiadas e anexadas ao processo-, admitiram o "ato infracional".

A polícia conseguiu chegar ao computador que originou as comunidades. Era de uma colega de classe de Alice. A única relação entre as duas era o fato de a garota insultada na internet ser a melhor amiga do então namorado da autora das páginas. Procurada pela Revista, a direção do Colégio Faap não quis se manifestar.

Diante dos pais e advogados, os estudantes levaram mais que um puxão de orelha. Foram tratados como infratores. Mas, como não tinham antecedentes, a eles foi concedida remissão, espécie de perdão judicial.

A principal dificuldade foi descobrir o autor da comunidade no Orkut, do Google, processo que levou quase um ano. "A empresa tem o hábito de não colaborar diretamente com a gente", afirma José Mariano de Araújo Filho, titular da Delegacia de Meios Eletrônicos. É lá que os casos mais complexos são investigados. Segundo Mariano, somente com ordem judicial o Google tem fornecido mais informações sobre um usuário do Orkut que esteja envolvido em algum crime. "Não podemos pré-julgar um comportamento", diz Félix Ximenes, 44, diretor de comunicação do Google do Brasil. "O juiz é nosso fiel da balança."

Impunidade
A sensação de que não vai ser descoberto e de impunidade leva adolescentes a criarem páginas e a dispararem contra os colegas sem medo. "O jovem não pára para pensar que a internet está no mundo. A conseqüência dos crimes contra a honra, de calúnia e injúria na internet é desproporcional ao dano", afirma Patricia Peck Pinheiro, 33, advogada especializada em direito digital. "Há, inclusive, aumento de pena, pois a pessoa foi exposta no mundo."

Patricia foi uma das responsáveis em formular uma cartilha para o Colégio Bandeirantes com orientações sobre a utilização da internet. "Boas Práticas Legais no Uso da Tecnologia Dentro e Fora da Sala de Aula" pode ser solicitada gratuitamente no site www.patriciapeck.com.br. "Percebemos uma atitude pró-ativa dos estudantes, que começaram a alertar os amigos para tomar mais cuidado", constata Cristiana Assumpção, 44, coordenadora de tecnologia de educação da escola.

O colégio São Luís também possui um projeto que visa coibir a prática do "bullying". Quem encabeça a iniciativa é a professora de português Roberta Ramos, 38. Depois de aplicar um questionário com os estudantes para ver quem se sentia vítima de "bullying", começou um trabalho de conscientização.

Além do blog da professora (www.auladaroberta.blogspot.com), os adolescentes estão começando a reunir material para criar uma página na web contra a prática. Está em gestação a brigada "antibullying", formada por 12 alunos voluntários. "Eles se dividem em grupos e visitam as turmas, oferecendo-se para dar maiores esclarecimentos no recreio", explica Roberta.

3 comentários:

Ana Maria 63 disse...

roberta ficou muito legal,mais eu acho que devia ter aparecido tudo que os outros falaram!!!!

Anônimo disse...

Olá galera! Já fui vítima de agressões verbais via internet, chegaram a colocar meu orkut numa comunidade! absurdo! Acho que deveria ser crime infiançavel tais crimes!

Anonymous-rp

Minelinha... disse...

Prezada Professora Roberta, moro na Italia e cheguei ate seu blog vendo o Estadao on line. Esta de parabens pela iniciativa, meu filho, de apenas 8 anos foi vitima de bullyng aqui e sofremos muito com isso. Sou advogada e sei como e dificil uma batalha dessas. Continue com esse trabalho maravilhoso. Ja virei fan de seu blog, se tiver interesse, visite o meu: http://www.marinelacarniato.blogspot.com. Grande beijo e "rimani con Dio"